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Quando meu mundo ficou pequeno demais para os meus olhos

11 de ago. de 2024
2 min de leitura

Sem prataria de família, nem aparelho de jantar inglês, tão pouco álbuns fartos.

O que havia na família era um país inteiro e isso não coube na mala.


"Vi a busca por matéria prima rasgar um país"


Quando meu mundo ficou pequeno demais para os meus olhos, comecei a garimpar diariamente. E isso faz quase quatro anos.

Busco motivos pra justificar o contos de domingo pra que você volte no domingo que vem. E é com esse sentimento entusiasmado e, ainda, inseguro, que sempre espero vocês às 19h de segunda-feira quando lança uma nova coleção de objetos.


Lembro de uma entrevista que dei pra uma revista no caderno de economia e o desapontamento quando disse que o que me norteava na curadoria dos objetos não era o sentimento saudosista - confesso que é um sentimento que me assusta. Veja bem que é diferente de saudade. Saudosismo me soa como uma comida muito salgada, já saudade é sobremesa e romântica - o que me guiava era matéria-prima e a execução a partir dela para se tornar um objeto dito utilitário.


Não incomum eram os caminhões na estrada carregados com toras de madeira que cortavam a Amazônia que via quando criança e ainda veja quando volto pra casa no Acre, onde nasci e cresci até os dezessete anos. Mais de dez anos depois ainda digo minha casa porque é onde mora meu estômago, meu olfato, meus ouvidos e meu coração.


Vi a busca por matéria prima rasgar, destruir, construir e confundir um país. E histórias de famílias sendo contadas e vividas a partir de cidades. A diferença entre um país e uma família é que em algum desses a tirania não senta à mesa.


Sempre me interessam as famílias e as cidades. E entre ambas sempre existe um objeto.

Para um estrangeiro muitas vezes um único objeto é o que resta de uma casa. E em muitas outras famílias se tem muitos objetos e pouca casa.


O que faço é como uma brincadeira de faz de conta em que agora esse objeto pode ser outra coisa além de onde veio.

É um convite à escrita de um novo conto a partir do objeto e é nesse momento que os olhos alcançam outros mundos e a história finalmente recomeça. Isso só é possível porque apesar da intenção humana é a matéria prima quem permite os recomeços, assim como a madeira e porcelana permitem um novo ciclo, assim como fazem as famílias estrangeiras.


Toda família é uma terra estrangeira e todo país é um país, mas o que nos aproxima?

eu chutaria que seria a comida.


beijos, cami


Foto: Boipeba, antigo território do acre, hoje estado do Acre. Rio Acre. De Pierre Verger do livro Brazil. Two hundred and seveteen photographs by A. Bon, M. Gautherot and P. Verger. Agir Editora, 1950.




 
 
 

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