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Em BH: A casa modernista Falci Mourão

20 de out. de 2024
3 min de leitura

Fui visitar a Casa Falci Mourão por indicação de uma cliente, a Carolina Orberg. Ainda estava no Rio quando vi nos stories dela as fotos dos pisos com pastilhas em vidrotil e marmorites. Por sorte eu estava com viagem agendada para Belo Horizonte e em duas semanas meus pés já estariam na Casa modernista, construída em 1952 para residência do médico Milton Machado Mourão e da artista plástica Gilda Antonina Maria Falci Mourão. 


Passei a infância indo anualmente a BH para fazer tratamento de vitiligo. Lembro quando vi a igreja da Pampulha de Niemeyer pela primeira vez e pude jurar que aquilo era o mais próximo que eu chegaria da casa dos Teletubbies: pequena, com curvas e acompanhava a linha do horizonte. Para completar minha fantasia só faltava servir cookies em vez de hóstia (que para mim era também um cookie, mas para gente grande).


Vinte anos depois sinto o mesmo quando entro na Casa da família Falci Mourão, hoje tombada, restaurada pelo arquiteto Gabriel Castro da MOBIO Arquitetura, e abriga as lindas cerâmicas do Ateliê de Cerâmica coletivo de Daniel Romeiro, Flavia Soares e Luiza Soares).

Ali senti o mesmo acolhimento quando entrei na pequena igreja da Pampulha. 

Não sou uma expert sobre modernismo. Tudo que aprendi foi sentindo e correlacionando dos efeitos às causas. Não saber muito sobre algo e saber que não se sabe é estar como alvo da vida e aceito de bom agrado meu papel de refém da curiosidade.


Três meses após estar em Belo Horizonte não quero escrever exatamente sobre a Casa Falci, nem sobre sua história e arquitetura porque acho que me falta conhecimento. Minha pretensão é reviver e compartilhar o estado de ânimo que senti ao estar lá pela primeira vez e a pulga atrás da orelha que se instalou em mim desde aquele dia e que sinto coçar até hoje: continuar a brincar com nossas casas!


Um banheiro para crianças com revestimento de peixes e cavalo-marinho, uma paixão pela anatomia do sistema digestivo (Milton que foi pioneiro no uso do gastroscópio) que reverberou no revestimento de piso do hall, a garagem que se tornou sala de estudo para crianças, o banheiro em cor rosa, a casa feita para receber gente que a sala dá boas-vindas ao jardim e a piscina, o móvel para passar roupa no corredor...


Quando nossas casas se tornam máquinas de agradar vizinhos e parentes, algo genuíno sobre nosso próprio estar no mundo é soterrado. Hoje exige-se que uma casa em algumas semanas esteja pronta. Talvez esquecemos que morar é uma longa jornada de reconhecimento de necessidades, construção do nosso próprio rigor estético e busca por soluções de afazeres diários. E tudo isso não descolado do mundo posto porta afora, mas alinhado ao mundo.


Quando a equação de uma casa negligencia o lúdico, ela se aproxima mais de uma repartição pública do que de um lar - onde deve existir espaço para a audácia e imperfeição. E eu, que sai do universo jurídico com seu mobiliário arquivista metálico, placas de drywall, estofados ásperos e muito ácaro, fico feliz e entusiasmada quando encontro uma casa que é uma casa e não uma casa-repartição pública. Quando a casa é feita para morar. 


Faço o exercício diário de continuar acreditando que não é tão somente o poder monetário quem vai guiar a construção de um lar, mas a disposição para buscar soluções via mecanismos lúdicos quanto a estética e lúcidos quanto a matéria-prima. E ao fazer esse exercício, é quando acho que belisco mais perto da criatividade. 


Compartilhar com vocês meu olhar para objetos na Casa Conto é poder sentir que a vida continua em seu ritmo audaciosamente imperfeito, como se a ponta dos meus dedos tocassem por instantes essa casa onírica, que por sorte de vida às vezes visito algumas. 


Beijos, Cami.




 
 
 

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